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A alquimia representa a projeção de drama ao mesmo tempo cósmico e espiritual em termos de laboratório. 

A opus magnum tinha duas finalidades: o resgate da alma humana e a salvação do cosmos... 

Esse trabalho é difícil e repleto de obstáculos; a opus alquímica é perigosa. 

Os dois termos, “mortificatio” e “putrefactio”, são intercambiáveis, referindo-se a aspectos diferentes da mesma operação. 

A mortificatio não tem nenhuma referência química. Significa, literalmente, “matar”, sendo pertinente, portanto, à experiência da morte. 

Tal como usada no ascetismo religioso, tem sentido de “sujeição das paixões e apetites por meio de penitência, abstinência ou de dolorosos rigores infligidos ao corpo” (Webster).

Putrefactio é “putrefação”, a decomposição que destrói corpos orgânicos mortos.

A mortificatio é a mais negativa operação da alquimia. 

Está vinculada ao negrume, à derrota, à tortura, à mutilação, à morte, e ao apodrecimento. 

Essas imagens sombrias com freqüência levam a imagens altamente positivas – crescimento, ressurreição, renascimento;

Como afirma Paracelso (Hermetic and Alchemical Writings, 1:153): “A putrefação tem tamanha eficácia que anula a velha natureza, transmuta todas as coisas numa nova natureza, e gera outro fruto novo. Todas as coisas vivas nela morrem, todas as coisas mortas decaem, e depois todas essas coisas mortas, recuperam a vida.”

A putrefação retira a acridez de todos os espíritos corrosivos do sal, tornando-os suaves e doces.

O negrume refere-se à sombra. 

Esses textos que falam de modo positivo a respeito estariam aludindo, no nível pessoal, às consequências positivas advindas do fato de se ter consciência da própria sombra. 

Nível arquetípico também é desejável ter consciência do mal, “porque a negrura é o começo da brancura”. 

De acordo com a lei dos opostos, uma intensa consciência de um dos lados constela seu contrário. 

A partir do negrume nasce a luz.

Em contraste com isso, os sonhos que enfatizam o negrume costumam ocorrer quando o ego consciente se mostra identificado de maneira unilateral com a luz. 
O negrume quando não é original, tem como origem a morte de alguma coisa. 

Mais comumente, o dragão é o escolhido para morrer.  O dragão é a “personificação da psique instintiva”, sendo um dos símbolos da prima matéria. Essa imagem vincula a opus alquímica ao mito do herói que mata o dragão. 

Da mesma maneira como o herói resgata a donzela cativa do dragão, assim também o alquimista redime a anima mundi de sua prisão na matéria por meio da mortificatio da prima matéria. 

Como diz Jung, “a morte do dragão [é] a mortificatio do estágio inicial, perigoso e venenoso, da anima (= mercúrio), liberta da prisão a prima matéria”. 

A mortificatio do estágio inicial, perigoso e venenoso, da anima nos homens e o animus das mulheres, é parte importante do processo terapêutico. 

Explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigências de poder devem submeter-se à mortificatio para que a libido emaranhada em formas infantis e primitivas se transforme.

Outro objeto frequente é o “rei”. Por vezes o rei é substituído pelo Sol, o sol, como vítima. 

O leão também pode ser submetido à mortificatio – como rei dos animais e aspecto teriomórfico do sol. 

O rei, o sol e o leão referem-se ao princípio diretor do ego consciente e ao instinto de poder. 

Como diz Jung (Mysterium coniunctio, p. 364): “O egocentrismo é um atributo necessário da consciência, bem como seu pecado específico.”  

Como diz o apostolo Paulo: “Porque se viverdes segundo a carne, morrereis; mas se, pelo Espírito, mortificardes as obras da carne, vivereis.” (Rom. 8: 13)
Da mesma maneira que a mortificatio sucede à coagulatio, assim também a consumação da coniunctio inferior leva à mortificatio. Exemplo: Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, etc. 
Este fato ajuda a explicar a relutância das pessoas sensíveis em se comprometerem com o processo de individuação. Elas percebem de antemão o sofrimento a que estão se entregando.

O uso da adversidade também se apresentam no grande manual da mortificatio, A Imitação de Cristo, de Thomas à Kempis. Outro objeto da mortificatio é a figura da pureza e inocência. Corresponde à vítima clássica do sacrifício, que deve ser pura e imaculada como o cordeiro pascal (êxodo, 12: 5).  A idéia psicológica aqui contida é a necessidade de sacrificar o estado de pureza e de inocência. 
Fezes, excrementos e mais odores referem-se à putrefactio. Os sonhos comuns de vasos sanitários sujos – ou que deixam escapar excrementos – que acossam as pessoas de mentalidade puritana, pertencem a esse simbolismo. 

Os vermes acompanham a putrefação, e os sonhos com vermes veiculam essa imagem  com poderoso impacto. 

Todos os velhos abusos da sociedade, universal e particular, todas as acumulações injustas de propriedade e de poder, são castigadas da mesma maneira. O medo é um instrutor de grande sagacidade e o arauto de todas as revoluções. Uma coisa ele ensina: há podridão onde quer que ele apareça. Ele é um pútrido abutre; e, embora não se veja a coisa sobre a qual paira, há morte em alguma parte. 

Evangelho de João: “Na verdade, na verdade vos digo que se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só; mas, se morrer, dará muitos frutos. Aquele que ama sua vida a perde; e aquele que odeia sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna”. (12: 24-25)

A consciência da morte como ponto de partida da evolução da consciência. O embalsamamento do rei morto o transforma em Osíris, um corpo incorruptível e eterno.

Platão vincula de maneira explicita a sabedoria com a morte. Para ele, a filosofia, o amor da sabedoria, é, de modo deveras literal, uma mortificatio.
“Os verdadeiros filósofos fazem da morte sua profissão”. 

O mesmo pode ser dito de um importante aspecto da análise. Quando perseguimos a retirada das projeções, fazemos da morte nossa profissão.
Para Jung “A experiência do Si-mesmo sempre é uma derrota para o ego.”

Escrito por Ana Beck e faz parte da apostila da aula “A saúde e a doença na visão da alquimia”