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Todo aquele que deseja aprofundar-se em Alquimia, deve primeiramente se dedicar ao estudo das obras dos mestres tradicionais. Através da leitura e da meditação irá gradativamente penetrando o véu que recobre os seus escritos, adquirindo uma ideia da Obra completa, dos pormenores de cada etapa, das substâncias empregadas, etc.

Já falamos sobre as dificuldades que aguardam todo o estudioso: A tradição alquímica impõem restrições à sua divulgação de modo que a linguagem é alegórica, há os autores invejosos que procuram desnortear os iniciantes com informações errôneas, o simbolismo empregado pelos diversos autores para se referir a uma mesma operação geralmente é diferente, jamais encontraremos em um único tratado todas as indicações necessárias à realização completa da Obra, etc.

É necessário um bom conhecimento de Química, principalmente de práticas de laboratório, pois o trabalho alquímico envolve diversas substâncias e equipamentos e várias manipulações, que são comuns a todo químico, porém que podem ser perigosos para os leigos.

Além disso é preciso ter em mente que o trabalho alquímico assemelha-se muito mais a uma receita de cozinha, do que a uma experiência da química atual, conforme afirmam os mestres. Desta forma, existem variações nos processos, como na preparação de uma receita caseira para a fabricação do pão, do vinho ou da cerveja. As receitas passam de pessoa a pessoa, de geração a geração. O procedimento geral, a receita, é sempre a mesma, mas nunca se obtém o mesmo pão, o mesmo vinho ou a mesma cerveja. A mesma pessoa, cada vez que executa uma mesma receita, obtém sempre um resultado diferente.

Limojon de Saint-Didier nos diz em sua Carta: Afirmo-vos sinceramente que a prática de nossa arte é a mais difícil cousa do mundo, não quanto às suas operações, mas quanto às dificuldades que possui, em apreender distintamente, nos livros dos Filósofos: pois, se por um lado é chamada, com razão, jogo de crianças, por outro, ela requer, naqueles que procuram a verdade por seu trabalho e estudo, um conhecimento profundo dos Princípios e das operações da natureza, nos três gêneros; mas particularmente, no mineral e metálico. É grande coisa encontrar a verdadeira matéria, que é o sujeito de nossa obra, para tanto é necessário penetrar mil véus obscuros, com que ela foi envolvida; deve-se distingui-la por seu próprio nome, dentre um milhão de nomes extraordinários, com que os Filósofos diversamente a exprimiram; deve-se compreender todas as suas propriedades e julgar sobre todos os graus de perfeição, que a arte é capaz de dar-lhe; deve-se conhecer o fogo secreto dos sábios, que é o único agente que pode abrir, sublimar, purificar e dispor a matéria a ser reduzida em água; deve-se para isso penetrar até à fonte divina da água celeste, que opera a solução, a animação e purificação da pedra; deve-se saber converter nossa água metálica em óleo incombustível pela inteira solução do corpo, de onde ela tira sua origem, e para este efeito, deve-se fazer a conversão dos elementos, a separação e a reunião dos três princípios; deve-se apreender como dela se deve fazer um Mercúrio branco, e um Mercúrio citrino; deve-se fixar este Mercúrio, nutri-lo de seu próprio sangue, a fim de que se converta no enxofre dos Filósofos. Eis quais são os pontos fundamentais de nossa arte; o resto da obra se encontra assaz ensinado nos livros dos Filósofos, para não ter necessidade de mais ampla explicação.

Também é importante saber que as operações alquímicas possuem diferenças das operações químicas comuns. Essa diferença pode ser a influência celeste, conforme veremos adiante, ou a presença de um elemento catalisador, como o fogo secreto, na calcinação filosófica.
Na calcinação comum temos apenas uma substância submetida à ação do fogo, enquanto que na calcinação filosófica temos a ação conjunta do fogo comum e do fogo secreto.

Vejamos como Fulcanelli esclarece esta diferença: Na violência da ação ígnea, as porções combustíveis do corpo são destruídas; só as partes puras, inalteráveis, resistem e, embora muito fixas, podem extrair-se por lixiviação. Tal é, pelo menos, a expressão espagírica da calcinação, semelhança de que os autores se utilizam para servir de exemplo à idéia geral que se deve ter acerca do trabalho hermético. No entanto, os nossos mestres na Arte têm o cuidado de chamar a atenção do leitor para a diferença fundamental existente entre a calcinação vulgar, tal como se realiza nos laboratórios químicos, e a que o Iniciado realiza no gabinete dos filósofos. Esta não se efetua por meio de qualquer fogo vulgar, não necessita do auxílio do revérbero mas requer a ajuda de um agente oculto, de um fogo secreto, o qual, para dar uma idéia da sua forma, se assemelha mais a uma chama. Este fogo ou água ardente é a centelha vital comunicada pelo Criador à matéria inerte; é o espírito encerrado nas coisas, o raio ígneo, imorredoiro, encerrado no fundo da substância obscura, informe, frígida.

São tais diferenças que levam Canseliet a afirmar: Sem negar, de nossa parte, o valor e a exatidão das operações da química, ordinariamente bem conhecidas do técnico, devemos ter em mente que, sob os nomes que são comuns, as da alquimia são profundamente diferentes.

Além disso, alguns autores costumam dar os mais variados e extravagantes nomes, para uma determinada operação, a qual muitas é vezes é bastante simples. 

Vejamos o exemplo dado por Flamel sobre os diferentes nomes atribuídos à fase correspondente à solução do composto, a sua liquefação sob a influência do fogo, provocando a sua desagregação, com o aparecimento da cor negra: Portanto esta negritude e cores ensinam claramente que neste início a matéria ou o composto começa a apodrecer e dissolver em pó mais miúdo que os átomos do Sol, que depois vêm a ser água permanente. E esta dissolução é chamada pelos filósofos invejosos morte, dissolução e perdição, porque as naturezas mudam de forma. Daí surgiram tantas alegorias sobre os mortos, tumbas e sepulcros. Outros a chamaram calcinação, desnudação, separação, trituração, assadura, porque as confecções são mudadas e reduzidas em minúsculos pedaços ou partículas. Ainda outros, redução à primeira matéria, molificação, extração, mistura, liquefação, conversão dos elementos, sutilização, divisão, humação, impastação, e destilação, devido a que as confecções são liqüefeitas, reduzidas a semente, abrandadas, e circulam pelo matraz. E por outros xir, putrefação, corrupção, sombras cimerianas, báratro, inferno, dragão, geração, ingressão, submersão, compleição, conjunção, e impregnação, pelo que a matéria é negra e aquosa, e as naturezas se misturam perfeitamente, e se conservam umas às outras.

Escrito por Alberto Pellegrini e faz parte da apostila da aula introdutória do curso de alquimia do NEA – Núcleo de Estudos Alquímicos.