Search Our Site

Register
Considerava-se a prima matéria um composto, uma confusa mistura de componentes indiferenciados e opostos entre si, composto este que requeria um processo de separação. 

Os vários processos químicos e físicos realizados no laboratório alquímico fornecem imagens para esse processo.

Lemos na Tábua da Esmeralda: “Separa a terra do fogo, o sutil do denso, com delicadeza e grande ingenuidade.” 

Em termos psicológicos,o resultado da separatio pela divisão em dois é a consciência dos contrários. 

Os pitagóricos estabeleceram uma tabela de dez pares de opostos:
Limite – Ilimitado; Ímpar – Par; Um – Muitos; Direita – Esquerda; Macho – Fêmea;  Repouso – Movimento; Reto - Curvo, torto; Luz – Treva; Bom – Ruim; Quadrado – Oblongo;

O significado psicológico da descoberta dos opostos dificilmente pode ser superestimado. 

O mundo fora separado e, entre os opostos apartados, fora criado o espaço, o ambiente para a vida e para o crescimento do ego consciente.

A separatio elemental que dá ensejo à existência consciente é a separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu.

Shu significa, portanto, o ego primordial, o divisor de opostos, que cria o espaço para a existência da consciência. Na medida em que os opostos permanecem inconscientes e não-separados, vivemos num estado de participação mística, significa a identificação com um dos lados de um par de opostos e a projeção do seu contrário com um inimigo.

O ego imaturo é notório pelo seu estado de participação mística tanto como mundo interior quanto com o mundo exterior. Um ego nessa condição deve passar por um prolongado processo de diferenciação entre sujeito e objeto. A medida em que isto ocorre, a desidentificação com outros pares de opostos também ocorre.

O concreto e o simbólico são dois níveis diferentes de realidade que é preciso distinguir e considerar em separado. 

O LOGOS é o grande agente da separatio, que traz consciência e poder sobre a natureza – interior e exteriormente – graças à sua capacidade de dividir, nomear e categorizar.  

Ao separar os opostos, o LOGOS traz clareza; mas, ao torná-los visíveis, traz também o conflito.

“Eu não vim trazer a paz, mas uma espada. Porque vim colocar um homem contra seu pai, e uma filha contra sua mãe, e uma nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão aqueles de sua própria casa”. (Mat. 10:34-36).

Cristo, o Si-mesmo como Logos-Cortador, vem para dissecar ou desmembrar a participação mística da psique familiar. 

A versão gnóstica afirma de modo explícito que o alvo é fazer o indivíduo (“e ficarão solitários”).

A separatio pode ter como expressão imagens de morte ou de assassinato. 

Os sonhos de morte e os desejos de morte dirigidos contra uma pessoa particular com frequência indicam a necessidade de separação de um relacionamento de identificação inconsciente que se tornou sufocante. 

Um processo de separatio pode ser anunciado pelo aumento do conflito e do antagonismo num relacionamento amigável. 

Éris, a Deusa da Discórdia e irmã de Ares, preside a separatio. Sem ser convidada, ela foi a um casamento no Olimpo e atirou, no meio da reunião, uma maçã com a inscrição: “Para a mais bela”. Assim, provocou o julgamento de Páris. As comparações são odiosas, e foi isso que a maçã dourada provocou. Determinar o que é “mais” e o que é “melhor” requer julgamentos e a eles leva. Essas ações perturbam a participação mística da situação vigente e geram conflito, mas podem levar a uma consciência maior.

Diz Heráclito: “A guerra (entre os opostos) é o pai de todos e o rei de todos, a alguns mostra como deuses, a outros como homens; a alguns faz escravos, a outros livre”. 

Aristóteles afirma: “A virtude moral é uma média. É uma média entre dois vícios, um que envolve o excesso e o outro, a deficiência. Ela assim é porque seu caráter a leva buscar aquilo que é intermédio nas paixões e nas ações.... 

Por essa razão também não é tarefa fácil ser bom. Porque, em todas as coisas não é tarefa fácil encontrar o meio, por exemplo, encontrar o meio de um círculo não é para todos, mas para aquele que sabe.

A imagem do meio-termo pode ser psicologicamente entendida como uma expressão simbólica da relação entre ego e o Si-mesmo.

Não é apenas a virtude que se associa com uma média ou equilíbrio entre opostos, mas também o direito e a justiça.

A separação da alma e corpo é a morte... a separatio está intimamente vinculada à mortificatio, o que significa que a separatio pode ser experimentada como morte. 

A extração do espírito da pedra ou da alma do corpo corresponde à extração do sentido ou do valor psíquico a partir de um objeto ou situação concretos e particulares. 

O corpo – isto é, a manifestação do conteúdo psíquico – então morre. Isso corresponde à retirada de uma projeção, a qual, se for montada, envolve um processo de lamentação.

O excesso de preocupação com a separatio constela seu oposto, a coniunctio, e Mercurius passa de Logos-Cortador a Eros-Cola.

Escrito por Ana Beck e faz parte da apostila da aula “A saúde e a doença na visão da alquimia”